quarta-feira, julho 6

gosto de um menino que tem gosto de estrelas, de noite, de sol e de notas musicais. ele ainda não sabe disso. não me importo. posso fazer diferente dessa vez, posso esperar, o tempo, ah, o tempo...

e ele... he make(s) it easy to watch the world with love (Air).

terça-feira, julho 5

"Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou para o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada
Ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher"

domingo, maio 22

é ótimo não saber o que está acontecendo. e isso raramente acontece. "não é todos os dias que se encontra o que é feito para lhe dar a imagem exata do seu desejo" (lacan)

quarta-feira, março 30

Brilho eterno de uma mente sem lembrança

não é nenhuma novidade o fato de que o título deste filme de Michel Gondry tenha sido tirado do - lindo e gigantesco - poema de Alexander Pope. O estranho é eu ter me lembrado disso tanto tempo depois de ter assistido ao filme, me emocionado ao rever a história do filósofo cristão Abelardo e de Heloísa, e tido ânimo para procurar o texto de Pope.

(...)
How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd;
Labour and rest, that equal periods keep;
"Obedient slumbers that can wake and weep";
Desires compos'd, affections ever ev'n,
Tears that delight, and sighs that waft to Heav'n.

segunda-feira, janeiro 26

Thinking About You
(Radiohead)

Been thinking about you, your records are here,
your eyes are on my wall, your teeth are over there.
But I'm still no-one, and you're now a star,
what do you care?

Been thinking about you, and there's no rest,
shit I still love you, still see you in bed.
But I'm playing with myself, and what do you care
when the other men are far, far better.

All the things you've got,
all the things you need,
who bought you cigarettes,
Who bribed the company to come and see you honey?


saudades, saudades, saudades... infinitas!

segunda-feira, janeiro 12

Blogs


filosofar como o Mentecapto
citar como Maira Parula
falar de amor como Moca
escrever no feminino como Fulana e Beltrana

It's only you
Who can tell me apart
And it's only you
Who can turn my wooden heart




terça-feira, dezembro 30

Monólogos

Ele - "Diz que eu estive por pouco Diz a ela que estou louco Pra perdoar
Que seja lá como for Por amor Por favor É pra ela voltar"

O amigo - "Seus cacos De vidro O seu veneno incomodando A tua honra
O teu verão Presta atenção"

Ele - "Sobrou desse nosso desencontro Um conto de amor Sem porto final
Retrato sem cor Jogado aos meus pés E saudades fúteis Saudades frágeis Meros papéis"

Ela - "Pra mim Basta um dia Não mais que um dia Um meio dia Me dá Só um dia"

Ele - "E se eu convidá-la pra dançar E se ela ficar assim assim E se eu lhe entregar meu coração"

O amigo - "Ela não vê que toda gente Já está sofrendo normalmente Toda cidade anda esquecida"

Ele - "Sim, foi que nem um temporal Foi um vaso de cristal Que partiu dentro de mim Ou quem sabe os ventos Pondo fogo numa embarcação Os quatro elementos Num momento de paixão"

O amigo - "Ela e seu castigo Ela e seu penar Ela e sua janela"

Ele - "Foi ela que me convidou Fui eu que não soube chegar Foi ela que me maltratou Fui eu que não soube chorar"

O amigo - "Você sai e não explica Onde vai e a gente fica Sem saber se vai voltar"

Ele - "Meu amor Abre a porta pra noite passar E olha o sol
Da manhã Olha a chuva Olha a chuva, olha o sol, olha o dia a lançar Serpentinas Serpentinas pelo céu"

Ela - "Já passou, já passou Se isso lhe dá prazer Me machuquei, sim, supurou
Mas afaguei meu peito E aliviou Já falei, já passou"

Ele - "Preparei para você uma lua cheia E você não veio E você não quis"

Ela - "Também vi a cidade incendiada, eu tive medo Eu vi a escuridão Eu vi o que não quis Amei mais do que pude"

Ele - "O que será que me dá Que me bole por dentro, será que me dá Que brota à flor da pele, será que me dá E que me sobe às faces e me faz corar E que me salta aos olhos a me atraiçoar E que me aperta o peito e me faz confessar O que não tem mais jeito de dissimular"

Ela - "Vivo bem, não é pra menos Que você vem me encontrar Mas quando eu tanto precisava Meu amor, como é que é Onde é que você estava Onde é que você estava"

Ele - "Taí Nosso mais-que-perfeito está desfeito E o que me parecia tão direito Caiu desse jeito sem perdão Então Disfarçar minha dor eu não consigo Dizer: somos sempre bons amigos É muita mentira para mim"

Ela - "Pode ser Que passe o nosso tempo Como qualquer primavera Espera"

Ele - "Vou te reter pra sempre Na minha idéia No teu lugar, talvez Fique alguma tonta, uma dublê Uma mulher alheia Na minha idéia Vives plenamente
És a pessoa Com todas as canções"

Ela - "Se você sentir saudade, por favor não dê na vista"

Ele - "Ontem vi tudo acabado Meu céu desastrado Medo, solidão, ciúme"

Ela - "A vida não gosta de esperar A vida é pra valer A vida é pra levar"

Ele - "Oh, pedaço de mim Oh, metade adorada de mim Leva os olhos meus Que a saudade é o pior castigo E eu não quero levar comigo A mortalha do amor Adeus"

segunda-feira, dezembro 29

Festa, festa, festa!

"Existe um milagre em cada novo começo" (Hermann Hesse)


segunda-feira, dezembro 22

What ever happened?

um beijo!

feliz natal
O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
(Fernando Pessoa)

feliz 2004!

All is quiet on New Year's day
A world in white gets underway
I want to be with you, be with you night and day
Nothing changes on New Year's day
On New Year's day
(U2)

sexta-feira, dezembro 19

não me suporto nessas horas... queria pensar em outra coisa, pensar em esquecer o menino. mas não consigo (não quero?), quero sim, pensar é o que estraga tudo. é estranho ver que não consigo controlar mais meus pensamentos, pensando nele (que absurdo?!). tenho medo de deixar as coisas acontecerem mas ao mesmo tempo quero que tudo aconteça. já não faz nem um minuto e já estou com saudades. um contrasenso. do nada meu coração parou de funcionar por alguns segundos...

O amor é um beijo no espelho. (Mario Quintana)



música, música, música....................

"Talk to me now I'm older
Your friends'll do cuz I told her
Friday night's a bit lonely
Change your plans and then phone me (...)

The world is shutting up for us
Oh we were tense for sure
But we was confident

Kiss me now that I'm older
I won't try to control you"

The Strokes


quinta-feira, dezembro 18

"Mais uma vez o dia chega
Em minha vida
Como uma chama na selva"

Faz tanto tempo que a gente não se vê que nem sei o que dizer. Nunca me importei com isso mas agora é diferente. Não entendo direito o que mudou para você de repente começar a fazer diferença, a não fazer sentido. Um turbilhão de coisas apressando a hora da gente se ver. Mas não vou fazer nada, viu? Vou só torcer para você perceber e desmontar meu mal estar. Será que a gente pode dar certo? Você se importa? Te beijo sem você saber!

"A minha boca e a tua
Vão deixando pela rua
Palavras e silêncios"
Palavras e silêncios, Zeca Baleiro e Fagner

sexta-feira, dezembro 12

Contagem regressiva para o ano que vem

.... ainda demora.....

sábado, novembro 29

descobri(r) você

acordei longe de mim. não consigo me sentir mais sem você. "se fosse só sentir saudade
mas tem sempre algo mais seja como for ..."

tenho saudades do que ainda não existe. você deitado do meu lado na praia, as mãos apertadas contra meu rosto, escondendo a claridade de mim. depois você se levanta e começa a chutar as ondas, fica debruçado no mar, engolindo a água salgada e respingando gotas de água em minha direção. (cont.)

terça-feira, novembro 25

Inaugurei um flog.... A bela e a fera. Inspirado no livro homônimo (e póstumo) da Clarice.

"Depois havia o telefone. Telefonaria para alguém? Mas sempre que telefonava tinha a impressão nítida de que estava sendo importuna. Por exemplo, interrompendo um abraço sexual. Ou então era importuna por falta de assunto.

E se alguém lhe telefonasse? Iria ter que conter o trêmulo da voz alegre por alguém enfim chamá-la. Supôs o seguinte:

- Trim-trim-trim.

- Alô? Sim?"

segunda-feira, novembro 24

Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu

Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus

Sem fantasia
Chico Buarque/1967

obs. por que você não muda minha vida agora?

terça-feira, novembro 18

"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho"

Eça de Queiroz, O Primo Basílio

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
(...)

Nuvens me cruzam de arribação.
Tenho uma dor de concha extraviada.
Uma dor de pedaços que não voltam.
Eu sou muitas pessoas destroçadas.
(...)

(ele) é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
(...)

(... consegue esticar o horizonte usando 3 fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
... desregula a natureza: Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?).
(...)

Estou atravessando um período de árvore.
Manuel de Barros

segunda-feira, novembro 17

Nous sommes solitaires

essa é a última vez que te escrevo e faço isso porque te escrevendo, na verdade, escrevo para mim e agora percebo que isso não faz mais sentido, não tem mais razão. preciso (mais do que quero) te dizer que aceito deixar de lado tudo que nos completou por tanto tempo mas já não suporto mais o inverno. não sei se já te entendo, ou me entendo, mas se isso ainda não aconteceu, te aceito. meus textos nesses últimos tempos são seus e essa foi a forma estranha que tive para me encontrar com você, todos os dias. Mas não quero mais isso. Não suporto mais isso. Desisti de tentar imaginar seu lugar dentro de mim. assim, desacreditando, começo a me preencher de novo.

L'amour, c'est l'occasion unique de mûrir, de prendre forme, de devenir soi-même un monde pour l'amour de l'être aimé. C'est une haute exigence, une ambition sans limite, qui fait de celui qui aime un élu qu'appelle le large.
(Rainer Maria Rilke, Lettres à un jeune poète, p.75, 1937)
Dans la mesure où nous sommes seuls, l'amour et la mort se rapprochent.
(Lettres à un jeune poète, p.80, 1937)

À la Folie... Pas du Tout

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
(...)
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos... (Manuel Bandeira)

Não pensava em vê-lo novamente. Peguei, despreocupada, um punhado de damas da noite no jardim, achando que iriam me fazer companhia naquela noite. Mais longe de mim mesma do que dele comecei a tentar esquecer o que em mim há de desigual. Quando nos encontramos, foi como se, de novo, minha vida se enchesse de cor. Em um minuto, não havia mais razão para nossas existências pálidas. Nossa vida não cabia em nossas escolhas. Era só o encontro. Precisava sentir novamente seu corpo contra o meu. Ele não tentou se desvencilhar como sempre fazia, não evitou meu olhos, e dos olhos passou a não evitar as palavras, que saíram tornando incontornável sua brusca partida. Teimei em esquecer das horas, em não cumprir o combinado, em não tentar esconder ele de mim. Sua resposta foi não tentar mais conter as outras vidas, que se metiam entre nós. O quer me revira agora é ver que tudo foi feito, tudo foi dito, tudo passou. O que eu esperava dele? Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas. Mas ele não conseguiu dizer nada, não consegui me fazer ter certeza de que quero que mo(re)rra em mim o desejo de amar os seus olhos. Por que você não muda minha vida? Por que não deixa de querer saber se O tempo passa? Não passa no abismo do coração. (...)O tempo nos aproxima cada vez mais, nos reduz a um só verso e uma rima de mãos e olhos, na luz.. Sei que um dia isso vai passar mas não consigo suportar te ver deixar tudo isso passar. Então, te enterro um pouco a cada dia, dentro de mim. Não temos mais porque nos ver, você já está em outra direção. E o que eu queria te dizer, aliás, nem sei se hoje isso faz sentido, é que...

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando - por esperteza do amor - senti que éramos um só.

Carlos Drummond de Andrade, Reconhecimento do amor

terça-feira, novembro 11

"L'amour ouvrait soudain l'incommunicable comme une clé"

segunda-feira, novembro 10

Stars

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto

Valsinha, Chico Buarque

terminar - perder a cabeça - encher minha vida de som - parar de pensar - me desculpar - te desculpar - não me arrepender - ganhar flores - não fazer ele se perder - deixar alguém entrar - começar - assumir - esquecer a história - pedir para ele parar de falar - fazer uma declaração de amor - falar a verdade - pedir um tempo - dar um tempo - apostar - não ter medo - me surpreender - deixar alguém se aproximar - esquecer - amar seus olhos - fechar os olhos - abrir os braços - enjoar de tanto gostar - tentar...

E eu estava só e sofria pela possibilidade de não poder mais te alcançar. Você começava a desabrochar, suas raízes não estavam mais ao alcance das minhas mãos. Sentia você viver mas e eu? Vivia?

"Assim, o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não queria te fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis.
- Mas tu vais chorar !
- Vou.
-Então não sais lucrando nada!
-Eu lucro, por causa da cor do trigo.
-Vais rever as rosas e volta. Tu compreenderás que a tua é ÚNICA no mundo.
E ele disse às rosas:
- Vós não sois iguais à minha rosa, vós não sois nada.
- Ninguém vos cativou e nem cativastes ninguém.
-Sois como era a minha raposa, mas eu fiz dela um amigo.
-Agora ela é ÚNICA no mundo.
-Sois belas, mas vazias... A minha rosa sozinha é mais importante que vós todas.
-Foi dela que eu cuidei, ela é a minha rosa!
-Adeus, disse ele.
- Adeus, disse a raposa.
-Eis o meu segredo: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Trecho de O Pequeno Príncipe


EU SOU VERTICAL
Sylvia Plath, tradução de Vinicius Dantas

Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo —
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.

domingo, novembro 9

O sábado

E de novo era um sábado, como aquele em que se despediram pela primeira vez, como o que inauguraram a nova - incômoda - sensação de não estarem mais juntos. Quando chegaria o sábado em que ela o veria entrar pela porta, escancarando as certezas - incertas - do fim para recomeçar outra vez?

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento

(...)
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos

It was...

E ela não sabia bem o que fazer com aquela barriga enorme, o suor se confundia com as gotas de chuva que, pouco a pouco, começavam a colorir seus olhos e depois seu rosto. Ela não estava chorando, não precisava, chorava de uma outra forma, num ritmo que combinava com as batidas do seu coração, com a intensidade com que aquela barriga estourava os botões de sua camiseta, imprensava seu corpo contra o dele. Eles não estavam chorando, mas era como se estivessem. Não havia espaço suficiente para isso. Tratou de ajeitar o cabelo que teimosamente cismava de misturar-se aos dele. Se apressava para tentar colocar os fios atrás da orelha. A cada tentativa, outros fios apareciam. Não tiveram coragem de conversar, se entreolharam através da barriga.

I'll always be waiting for you,
So you know how much I need ya,
But you never even see me, do you?

And this is my final chance of getting you.

On and on from the moment I wake....
Did (you) want me to change?...
Coldplay, Shiver

As tintas estavam agora começando a secar, mais algumas horas e podiam recomeçar todo o trabalho, escolhendo de novo o pincel, a tela, as cores. Suas mãos não se tocavam, sequer havia tempo para isso. As pinceladas rápidas contrariavam os séculos que ainda tinham que esperar para verem aquela barriga se desmanchar. Aos poucos, sentiu vontade de apoiar sua cabeça entre as pernas. Ele não deixou, preferia deitar, ele próprio, entre suas pernas. Tentou respirar fundo mas dessa vez foi surpreendida. Não escondia mais o constragimento de não poder encará-lo e de estarem ali, juntos outra vez, tão expostos e descobertos, com a barriga entre eles. E depois vieram as dúvidas, e mais a vontade de ficar cada vez mais perto dele, de arriscar tudo outra vez. Tudo? Ainda tinham tudo para tentar. Era o amor desarrumando as coisas ao seu redor.

I came here with a load
And it feels so much lighter now I met you
And honey you should know
That I could never go on without you
Green eyes

Honey you are the sea
Upon which I float
And I came here to talk
I think you should know

The green eyes, you're the one that I wanted to find
And anyone who tried to deny you, must be out of their mind
Coldplay, Green Eyes

quinta-feira, novembro 6

Live your life filled with joy and thunder

um verso de Sweetness Follows do REM e a sensação de que alguma coisa diferente pode acontecer. será que não dá para eu parar de tentar prever as coisas, e sempre as mais fatalistas?! Não sei se consigo me desarmar (trocadilho: (des)amar) e experimentar um outra coisa? Sentir é estar distraído, Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

...

ainda antes de respirar, ainda antes de conseguir digerir, ainda antes de me livrar das outras palavras, e dos outros, e das outras possíveis histórias que podíamos ter tido. Ainda assim, quando minhas palavras se embaçam, se desmancham e se diluem.

Um reconhecer-se, uma dor sem igual de simplesmente ser, sem você.



Uns versos para você, ou para mim. Porque "resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto. Esse eterno levantar-se depois de cada queda. Essa busca de equilíbrio no fio da navalha. Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens."

Vinícius de Moraes, O Haver


A(ma)r-dilhas Armadilhas

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia

Lupicínio Rodrigues

Como um jardim que o mar de cinzas quer secar
O tempo corre, corre

Moraes Moreira

Quando enfim juro que esqueci
Quem se lembra de você em mim, em mim
Não sou eu, sofro e sei
Não sou eu, finjo que não sei, não sou eu

João Bosco

E eu vou lembrar você
É, mas sei que ainda há muita coisa pra arrumar
Promessas que me fiz e ainda não cumpri
Palavras me aguardam um tempo exato pra falar
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender

Ana Carolina

E pra que palavras
se eu não sei usá-las?
cadê palavra que traga você
daquela calçada?
você atravessou a rua
na direção contrária

Adriana Calcanhoto



quinta-feira, setembro 25

six feet under



terça-feira, agosto 12

(A)os cacos, as cartas



Não esperava encontrar mais aquelas cartas. Na verdade, mais do que isso. Tentei, inutilmente, esquece-las. Deixei que elas se embaralhassem na intenção de, ao inverter a ordem das palavras, apagar o fato de que, também como elas, nossa história, narrada em estúpidos capítulos, aos cacos, também tinha chegado ao fim.

O fim.

Mais uma vez me dei ao trabalho de tentar decifrar sua letra. Mal escrita(o), confusa(o). Me deixei conduzir até ensaiar o que não tinha experimentado até então, desistir de inventar - e ler - você. Pensar em você no tempo passado. Desacreditar você, deixar de v(iv)er você.

Interrompi, pela primeira vez, a seqüência sem sentido de conversas que sempre me levavam a procurar clichês para tentar nos definir. E como recriando o impulso primeiro que te levou até mim, vi nascer um outro você. Dessa vez, longe dos meus olhos, seu corpo começou a se desenhar com liberdade. Fora das linhas e de mim.

Não consigo mais me desvencilhar dos limites. Dos meus, dos seus. Podia amassar aquelas páginas mas preferi deixa-las ao lado da cama. Ali, ainda sem forma e contra a minha vontade, você conseguiu ir bem mais longe.

Talvez nunca chegue a descobrir em mim o que tentei descobrir em você. Não importa. Nunca disfarcei que não era só aquilo que eu queria. Eu espero mais, e espero.

Aos poucos fui me deixando invadir por uma calma estranha. Me forcei a ceder e senti que você se agitava. Uma sensação bem próxima da que me fez insistir, por tanto tempo, em permanecer ao seu lado.

Como num soluço, forte e seco, a noite me obrigou a olhar para fora. Você como uma janela. Me debrucei no parapeito. Tentei não perder o(s) sentido(s). É dolorido demais recriar o incomodo que sinto ao mudar de assunto cada vez que você finge que não está me vendo.

Eu também não devia escrever essa carta. Mas eu só estou fazendo isso pra você ver que o nosso amor ainda não começou. A vida – errada – é só o que nos afasta. Agora são nove e tal da noite mas podia ser qualquer outra hora. Não sei se tem alguém dormindo ao seu lado na cama mas para eu só consigo enxergar teu corpo. Nesses últimos anos, não sei qual de nós dois fugiu. Você ainda não está comigo, apesar de eu ainda querer beijar sua boca todos os dias. Mas eu não preciso de tão pouco. Não sei se sua tristeza sempre foi mais bonita do que a alegria. Eu até gosto dela. Mas essa indiferença que sobra só serve pra nos manter fechados (os olhos).

sábado, agosto 2

sábado, julho 19

faz muito tempo... mas ainda andábamos sin buscarnos, pero sabiendo
que andábamos para encontrarnos.
Rayuela, Cortázar

terça-feira, julho 1

Será?

não sei porque simplesmente voltar a pensar no que poderíamos ter feito para evitar o fim me fez chorar. Na fissura de tentar lembrar a letra de Going to California, Tryin' to find a man who's never, never, never been born. Standing on a hill in my mountain of dreams, Telling myself it's not as hard, hard, hard as it seems. me vi tentando montar um roteiro ideal para aquele final de tarde. Tudo a minha volta já parecia inverno.

Podia tentar deixar as coisas simplesmente serem. Mas acabei superando o próprio destino e reescrevendo uma outra história, desta vez, lotada de diálogos programados, sensações de liquidificador. Os beijos eram os mesmos, gostos reeditados, dissabores de um outro novo velho estado de surpresa.

Do you have a big intellectual capacity but know
That it alone does not equate wisdom?
Do you see everything as an illusion?
But enjoy it even though you are not of it?
(Alanis)

it's sad to see
lonely all this lonely
close up my eyes
dreamy dreamy music that make you feel alright
music playing make it good for romacing
must be a way i can dress to please him
swing and sway everything will be alright
but he's feeling so down tight tonight.
(PJ Harvey)

Last saw your face, in a watercolour sky
As sea birds argue, a long goodbye
I took your kiss, on the spray of the new land star
You gotta live with your dreams, don't make them so hard, oh oh
(U2)

segunda-feira, junho 30

quarta-feira, junho 25

E cheguei exatamente onde algum dia
Você disse que partia
pra nunca mais voltar
E eu já estava lá a te esperar sem dizer adeus

Fiquei sozinho até pensar que estar sozinho é achar que tem alguém

Já me esqueci do que não fiz e o que farei pra te esquecer também?
Se eu não sei o nome do que sinto
Não tem nome que domine o meu querer

quarta-feira, junho 4

Amavisse
de Hilda Hilst

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


quarta-feira, maio 21

Como a vida muda... como a vida é muda

já estava atrasada quando peguei o ônibus. Sentei apressada em um lugar qualquer. Num dos únicos lugares vazios, perto da janela, o sol estalava, refletindo nos meus olhos e me fazendo procurar alguma visão dentro do coletivo. Foi nesse instante que tudo aconteceu. Ele também estava se ajeitando no banco ao lado. A mochila lotada completava o quadro desarrumado. Mudei de lugar e tratei de sentar bem na sua frente. Coloquei um casaco para contrariar com toda aquela claridade. Senti um puxão no cabelo e olhei, sem jeito. Era um conhecido. No ponto seguinte, eu ainda me recuperando do susto, tive que suportar a visão de que ele estava indo embora. Da janela acompanhei seus passos. Não conseguia engolir aquele mal estar. Olhei, ele revidou com outro olhar. Não consegui dizer nada. Num impulso, saltaria daquele ônibus e esqueceria tudo, mas o motorista arrancou rápido demais. Fiquei sem ação. Nem tive tempo de congelar aquela visão por mais alguns minutos.

Faraway, so close
Up with the static and the radio
With satelite television
You can go anywhere


quinta-feira, maio 8

Mi unicornio azul

Talvez a desculpa seja a falta de dúvidas, ou o melhor mesmo seja justamente isso. Um descomprometimento com qualquer história, um despreendimento temporal que nos leva a afastar as certezas. Descubro seu rosto sem descobrir coisa alguma. Suas palavras ácidas, tão cheias de música, esbarram nos ruídos das minhas certezas, tão imprecisas. Gosto de ensaiar diálogos imaginários com um outro você, que escorrega para longe do meu alcance. Guardo a sensação de estranheza que me aproximou de você, como instrumentos dissonantes numa batida insistente. É o incômodo de não conhecê-lo que me leva a querer mais e mais desejar (ler) você. Por que não posso pensar em toda essa confusão? Por que não posso simplesmente não pensar?

"Eu ouvi dizer que você assim como quem não quer nada perguntou por mim... agora... logo agora... justo agora... Eu ouvi você me dizer que sim, mas era silêncio que se ouvia, quando dei por mim... agora... logo agora.... justo agora..."

Guardo para você as coisas que não existem. As cartas de amor que nunca vou escrever. Nossas palavras não combinam mais. Meu desejo irrompe de tudo isso que é estranho a mim e nasce agora a partir de você. Não preciso de você, as coisas não precisam de você...

Supõe que já cruzamos pela vida • Mas nos deixamos sempre para trás • Porque eu andava sempre na avenida • E tu corrias pelas transversais • Supõe que num comício colorido • A praça enfim vai nos conciliar • Supõe que somos do mesmo partido • Supõe a praça a se inflamar • Bandeiras soltas pelo ar • E tu começas a cantar • Supõe que eu vibro comovida • E supõe que eu sou tua canção • Supõe que te apresentas como amigo • E me perguntas nome e profissão • Comentas que faz sol ou tem chovido • Ou outro comentário sem razão • Supõe que eu te observo compreensiva • Porém não tenho nada a acrescentar • Supõe que falas coisas desta vida • Como querendo aparentar • Que tu tens muito a contar • Que és um tipo original • Supõe que eu rio divertida • E supõe que eu sou tua canção • Supõe que nós marcamos um cinema • Mas chegas lá pro meio da sessão • Pois teu trajeto tem algum problema • Que só te leva numa direção • Supõe que agora a tela me ilumina • Tu ficas assistindo ao meu perfil • Supõe a minha mão tão recolhida • Que não percebe a tua mão • Que não percebe a minha mão • Que não é sim que não é não • Supõe que eu sigo distraída • E supõe que eu sou tua canção • Supõe que a boa sorte é nossa amiga • E que das três às cinco pode ser • Meu pai acaba de dobrar a esquina • E tu vens me encontrar, enfim mulher • Supõe que sem pensar nos abraçamos • Supõe que tudo está como previmos • É a primeira vez que nos amamos • Supõe que falas sem parar • Supõe que o tempo vem e vai • Supõe que és sempre original • Supõe que nós não nos despimos • E supõe que eu sou tua canção •
Supõe (Supon)
Silvio Rodrigues, Versão: Chico Buarque



segunda-feira, maio 5

Pelos Ares
Adriana Calcanhotto & Antonio Cicero

Não lhe peço nada
mas se acaso você perguntar
por você não há o que eu não faça

Guardo inteira em mim
a casa que mandei
um dia
pelos ares
e a reconstruo em todos os detalhes
intactos e implacáveis

Eis aqui
bicicleta, planta, céu,
estante cama e eu
logo estará
tudo no seu lugar

Eis aqui
chocolate, gato, chão,
espelho, luz, calção
no seu lugar
pra ver você chegar

Meu coração não se cansa...

de ter esperança de um dia ser tudo... não posso completar a frase. Nem eu nem meu coração - tão mal-formado - esperam nada de você. Uma surpresa interrompe a cadência dos meus dias. Você aparece como uma chuva forte, de um dia abafado e morno de verão. Os pingos fortes e insistentes estalando no asfalto. Seu descomprometimento arriscado me levando a buscar partes soltas de você em vários outros lugares, dissonantes. Você tem alguma coisa de forte e intensa que me faz tentar desenhar o que seria esse nosso não-amor. Clandestino, escondo você no lugar das coisas que não são. Nada existe ainda e você ri, desprendido em reticências. Preencho meus dias, pensando em um quase você. Não, você ainda não nasceu, você ainda é a imagem embaçada de um mundo possível. Rasgo as cartas que nunca cheguei a te escrever. Amasso os vestígios dos seus textos nas minhas linhas. Você escreve em qualquer direção, preenche de branco tudo à minha volta.

Esqueço as cartas de amor, num esforço, esqueço até você, e o amor.

todo eso es tan poco
yo lo quiero de vos porque te quiero.


Que mires más allá de mí,
que me ames con violenta prescindencia
del mañana, que el grito
de tu entrega se estrelle
en la cara de un jefe de oficina,


y que el placer que juntos inventamos
sea otro signo de la libertad.

Julio Cortázar

quinta-feira, maio 1

Um Rio de olhares

A desculpa foi uma conversa atravessada pela distância que já devia ter tido há muito tempo com o Mano. Ambos temos essa relação dialógica com o Rio e sabia que isso ia explodir em algum momento. Esperava poder ter o que dizer sobre esse lugar daqui a anos ou décadas quando a imagem cristalizada seria a de um Rio antigo, envelhecido, cor sépia, muito mais narrativo e menos dinâmico do que o Rio do tráfico desse início de século.

A cidade maravilhosa, plural e essencialmente masculina, no meu ponto de vista, ganhou contornos excêntricos aos olhos dele, o que nos fez ter certeza de que somos ao mesmo tempo múltiplos, estranhos e intrusos nesse novo ninho. Fazemos parte de uma cidade que não nos pertence inteiramente.

Experimentamos repartidos uma vida espremida a outras várias vidas, diferente das que estávamos acostumados. Eles estão por toda parte, ocupam cômodos mal arranjados, lotações calorentas e filas de todo o tipo. Enfileirados a espera de uma elevador que pode nos levar até o andar mais alto de um arranha céu, estamos possivelmente a salvo de atentados kamikazes, mas de balas perdidas, até quando?

Alimentamos a esperança de que uma visão do já tão desgastado Cristo Redentor irá nos redimir. Nossas vidas cheias de contradição se ocupam de procurar em alguma janela a vista. E ele lá de braços abertos, namorando escancaradamente a Zona Sul, impávido, alheio ao corre-corre que se dá nos túneis engarrafados que nos levam a outras zonas, nem tão abençoadas assim.

E nós, com nossos discursos tão permeados de dúvidas, incertos sobre o que nos leva a esse outro lugar, somos tomados por uma urgência de cidade nova, também estranha, e levados a percorrer ruas e becos em busca de alguma memória.

Nasci no Rio, num Rio de fins de anos 70, radicalmente diferente da cidade que (re)conheci 18 anos depois. E o começar a descobrir, que acontece simultaneamente conosco, por acaso quando eu acabo de desistir de sair do Rio, e ele de optar pela cidade, faz com que qualquer coisa que aos poucos se desenhe, assombre nosso olhar. Há ainda as nuances cinzas dos prédios cinzas de fumaça sujas de cinza de cigarros de fumaça cinza de pessoas cor cinza.

Todos com seus horários perdidos, sua sensação térmica desequilibrada, seus amores apressados, mal amados, suados de calores de praia, o pique sexual das filas de banco, a tontura das noites nos bares do Centro. Enfim, um caos ao mesmo tempo ácido, feroz e envolvente.

Não sei porque ainda insisto em tentar ler essa cidade. Ela é deliciosamente indecifrável desse jeito. Uma puta que dá bom-dia aos mendigos da avenida Atlântica, às 7 da manhã, com o mesmo prazer que devora um big-mac falsificado na lanchonete da esquina depois de ter dormido com um rico empresário.

Não sei porque prefiro descobrir essa cidade através dos olhos de um outro amigo meu, esse estrangeiro de verdade. Começo a decorar o nome das ruas com seu sotaque arrastado, improvisando novos caminhos e ensaiando, clandestinamente, um novo amor com esses dois, estrangeiros.


sexta-feira, abril 18

Amigos, companheiros e afins,

estou escrevendo para dar notícias do "fatídico" dia 16 de abril. Coincidindo com o aniversário de Chaplin, defendi, nas primeiras horas de uma tarde morna de outono, a pouco solar dissertação "Sangue, tripas, letras e película: um olhar sobre o terror em José Mojica Marins".

Contrastando com o teor lúgubre do texto, acordei cedo, animada pelos raios tímidos do sol, que já anunciavam um dia ardente e leve, nas palavras de Clarice. Uma ponta de ansiedade me fez revirar o quarto, e depois a casa, e depois o bairro, a procura de alguma sensação diferente.

Não conseguia encontrar o que me bastasse. Não conseguia segurar a angústia de ver o ponteiro apressando meu ritmo interno. Não conseguia suportar o fato de que estaria, em algumas horas, apresentando o que seria o resultado de quase dois anos de estudo. Não escondia a incerteza com pontos que ficaram pouco claros ou minha escrita indecisa, ora pontuada por um cartesianismo radical, ora por um desprendimento (pós?)(contra?) moderno. Mesmo assim, insisti em mudar minha rotina e consegui chegar na Puc excepcionalmente na hora.

Me arranjei bem numa mesa improvisada, cercada de livros, litros de coca-cola gelada (abri mão de toda a militância recém adquirida, que me leva a apoiar o boicote aos produtos made in USA) e um chocolate, ótimos subterfúgios....

Fiz uma apresentação rápida, enxuta, cuidadosa, não quis pecar pelo caminho fácil de tentar resumir em parcos 20 minutos aquela centena de páginas. Tive medo de todos os "caras", "maneiro" e "foda" que pudessem aparecer de surpresa na minha fala.

Aquilo ali era um rito de passagem, sim, ipsis literis!!! E eu estava apavorada.

Abri a fala, mais uma vez, apoiada em Clarice. "A dor é um mistério. Um dos meus alunos antigos já agora com quinze anos comprara um cravo para por na lapela e ir a uma festa. Festa, meu Deus, o mundo é uma festa que termina em morte e em cheiro de cravo murcho na lapela." (Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres). E foi com a intensidade voraz dessa autora que consegui falar e esquecer que estava fazendo uma defesa. Não, definitivamente não havia defesa.

O que houve foi uma diálogo, feliz. Em realidade, uma seqüência deles, pontuados por observações generosas de uma banca formada pelos professores-doutores-maravilhosos Roberto Corrêa dos Santos (PUC-Rio) e João Baptista de Macedo Freire (UFRJ). Sob os olhares atentos da minha orientadora Pina Coco (PUC-Rio), tentava corresponder, da melhor forma possível, a todas as intervenções, endossando críticas e tentando construir um olhar de fora sobre tudo aquilo que há tão pouco estava brotando dentro de mim.

Depois me retirei e passei minutos decidindo se devia ou não devorar minhas unhas, tão artificialmente bem pintadas pela manicure modernosa de um desses, não menos modernosos, salões da Zona Sul. Antes que conseguisse dar o veredicto de minha primeira vítima, o anular, minha orientadora me chamou.

Dessa vez, ao ver todos de pé, tentei me segurar nas paredes, literalmente, e não deixar que nenhuma lágrima desavisada comprometesse o tão delicado equilíbrio do meu corpo. Senti pela primeira vez a dureza de manter a cabeça, às vezes, tão pesada, sobre ossos, frágeis.

A banca aprovou a dissertação por unanimidade, destacando a criatividade do tema e profundidade da pesquisa, e recomenda a publicação!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Nem as quatro garrafas de cerveja que se seguiram conseguiram aplacar minha felicidade, meio indecente, de saber que havia chegado a algum lugar. Não importava bem saber que lugar era esse.

Hoje, durante uma conversa de bar, que por conjunções astrais não aconteceu num bar, descobri porque apesar de "o mundo andar tão complicado", estou convencida de que é muito bom botar tudo a perder por uma boa mudança. Fez sentido escrever que "os caminhos são muitos mas às vezes repentem-se", parafraseando Saramago, em uma das epígrafes da dissertação. Sem dúvida, são muitos, mas não são tantos assim.

Não sei porque quis congelar o gosto da cerveja - temperatura ambiente - que abrimos para brindar a madrugada. Nos desejamos saúde, rimos despreocupadamente e partimos para tentar rascunhar novos capítulos e reescrever juntos algumas páginas, dessa vez, sem prévias orientações.

terça-feira, abril 15

Alguém conhece?

Tua lembrança vive costurada à minha sombra e ora te pisoteio, ora fujo de ti. Ela toma a forma das coisas do meu dia: meus livros, minha cama, as ruas que percorro, a comida revirada num prato qualquer. Em tudo floresce tua imagem, marcada de tulipas, de arrepio e asas.

Alço vôo na esperança de me despreender da sombra que te carrega, e ela se faz maior, mais forte, e se projeta sobre as árvores da rua em que moro, cobre as pessoas que não me vêem passar. E tu te agigantas, fazendo-me perceber minha manobra inútil.

Não há como livrar minha sombra da tua lembrança. Então me deito no chão, exausto, quase sobre a sombra, e sinto teu cheiro, entre os restos do dia.

Não é só você que sente falta de alguém. Há também quem sinta falta de você.


Does it matter?

segunda-feira, abril 7

Um amor, uma música

deixei uma solidão a dois. Solidão a dois de dia. Faz calor, depois faz frio. Você diz: já foi. Eu concordo contigo (Cazuza). E cada segundo, cada momento, cada instante. É quase eterno, passa devagar. Se seu mundo for um mundo inteiro, sua vida, seu amor, seu lar (Paralamas). Tô te querendo como ninguém. Tô te querendo como Deus quiser. Tô te querendo como eu te quero. Tô te querendo como se quer! Você é assim. Um sonho pra mim. E quando eu não te vejo. Eu penso em você. Vejo o amanhecer. Até quando eu me deito. Eu gosto de você. E gosto de ficar com você. Meu riso é tão feliz contigo (Tribalistas).

sexta-feira, março 28

palabras, Cortázar, Neruda...

... um outro cabeludo apareceu na minha rua. ah, se essa rua fosse minha...um pensamento como um estalo, seco e inesperado.
Fico imaginando como seria se pudéssemos tentar - pela primeira vez - tudo de novo. E aí tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirações indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciam lentamente a profundidade do teu cabelo e nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.
Tento desviar meus olhos, contra minha vontade, ou pensar em alguma coisa para dizer, mas o que me vem à cabeça é confuso demais.

Para mi corazón basta tu pecho,
para tu libertad bastan mis alas.
desde mi boca llegara hasta el cielo.


Es en ti la ilusión de cada día .
Llegas como el rocío a las corolas.
Socavas el horizonte con tu ausencia.
Eternamente en fuga como la ola.



quarta-feira, março 26


Hope

me inspirando em um dos OsTrêsComuns...

Glue
Stuck to my shoes
Does anyone konw why you play with an orange rind
You say you packed my things
And divided what was mine you're off to the mountain top
I say her skinny legs could use sun
But now I'm wishing
For my best impression
Of my best Angie Dickinson
But now I've got to worry
Cause boy you still look pretty
When you're putt the damage on


Don't make me scratch on you door
I never left you
For a banjo
I only just turned around for a poodle
And a corvette
And my impression
of my best Angie Dickinson
But now I've got to worry
Cause boy you still look pretty
When you're putting the damage on


I'm trying not to move
It's just you ghost
Passing through
I said
I'm trying not to move
It's just your ghost passing through
It's just your ghost
Passing through
And now
I'm quite sure
There's a light in you platoon
I never seen a light move
LIke yours
Can do to Me
So now I'm wishing
For my best impression
of my best Angie Dickinson
But now I've got to worry
Cause boy you still look pretty
To me
But I've got a place to go
I've got a ticket to your late show
And now I'm worrying cause even still
You sure are pretty
When you're putting the damage on
Yes
When you're putting the damage on
You're just so pretty
When you're putting the damage on

sexta-feira, março 21

No casulo

estou começando a assimiliar melhor o que aconteceu e confesso que não está doendo tanto. Digo, ttttttaaaaannnnttttttooooo. Experimentar uma nova condição ao mesmo tempo em que me inquieta, acende outras expectativas. Do ponto de vista prático, começo a conhecer outras pessoas e outras condições. Mas nada parece ainda sair desse ponto.
Além do que, "não há como testar qual decisão é a melhor, porque não há base para comparação. Vivemos as coisas conforme elas se apresentam, desavisados, feito um ator entrando frio em cena. E de que vale a vida, se o primeiro ensaio para ela é ela própria? É por isso que a vida é sempre como um esboço. Não, "esboço" não é bem a palavra, porque um esboço constitui-se das linhas gerais de alguma coisa, a base de uma pintura, ao passo que esse esboço que é nossa vida é um esboço de coisa alguma, linhas gerais de pintura nenhuma" (Milan Kundera, A insustentável leveza do ser).
O novo começa a se insinuar, se desembaraçar do duro enlace das histórias desfeitas, mal acabadas. Estou no limiar de reconhecer o que tinha sido apagado.
Preciso que um beijo demorado me desperte.

terça-feira, março 18

Tudo vale a pena

será? Foi o que comecei a pensar ontem, quando cheguei em casa, exausta, e decidi empilhar uma montanha de livros na sala, para ter o prazer de ver aquele amontoado de teorias em outra dimensão. Tirar os livros da estante me fez ver ter vontade de esvaziar mais a mais a minha casa, numa pretenciosa intenção de fazer tudo combinar com minha nova condição: vazia.

É estranho pensar que passei tanto tempo tendo que pensar em alguém e de uma hora para outra todos esses pensamentos estão suspensos, literalmente no ar. Não sei o que fazer. Poderia simplesmente substituir esses pensamentos, transferi-los para outra coisa, outra pessoa. Mas não sei se estou totalmente disposta a fazer isso. Acho arriscado demais. E daí vêm as dúvidas, o medo...

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro... (Clarice Lispector)

domingo, março 16

As impurezas do branco

Começamos a não aceitar o tempo. Foi uma escolha, sem dúvida. Mas quando tudo foi se acalmando, não sabíamos mais como lidar com isso. “O tempo era bom? Não era. O tempo é, para sempre”. Repetia diariamente na tentativa vã de me convencer a lidar com o que eu não queria. A distância.
Mas, tudo “continua acontecendo. Nos mais desbotados panos, estou me lendo e relendo. Tudo morto, na distância que vai de alguém a si mesmo? Vive tudo, mas sem ânsia de estar amando e estar preso”.
Tentamos não acreditar que o dia já tinha passado. E foi assim, numa sucessão de dias, alguns mais longos do que outros, muitos incompletos. Partidos ao meio, sem razão. Dias quase noite de tão escuros – ao meio – e nós também divididos entre os tantos outros, tentando inutilmente esquecer do tempo.
Não tivemos tempo bastante para escolher. Nosso tempo foi encolhendo, aos poucos, forçado pelo novo. E agora, que dor perceber que “o que lhe falta em clareza e sobra em altura e resta em desejo ninguém decifra”.
Fico sozinha e não sei o que fazer com “suas plantinhas de vaso (sem sol) da janela, seu coração de válvulas paradas, seu coração entranhado de cisco, seu coração já sem forma de coração”.
E o resultado disso tudo. Aonde chegamos? Não sei. Eu ainda não cheguei. Ele “não chegou. Digo que não. Tudo foram ensaios, testes, ilustrações. A verdadeira vida sorria longe, indecifrável. Desisiti. Recolhi-me cada vez mais, concha, à concha. Agora sou sobrevivente”. E assim estamos, em reticências...

sábado, março 8

Mais uma impossibilidade

..."E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mais ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos seu contato com o tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la."
(Proust)

sexta-feira, março 7

Life is a Dream and Then You Wake Up

domingo, março 2

Os fantasmas da casa ao lado

Say what you mean, but it won't change a thing,
I'm sick of the secrets
Coldplay, Amsterdam

Não sei porque depois de tanto tempo voltei a ter vontade de escrever. Acho que só estava procurando um assunto ou uma desculpa para ousar revirar o armário em busca de fantasmas. Mas nem precisei disso, já que eles é que resolveram aparecer. A vontade de escrever coincidiu com/como um filme, numa sexta à noite, excepcionalmente quente e agitada, na véspera do Carnaval. O filme: As horas. E o resultado: boas e más lembranças. Um pesadelo.

Parte 1: o filme

Já sabia que ia ver um pouco da história da Virginia Woolf nas telas– o que já não é pouca coisa – mas achei que embora o tema do filme gire em torno desses desajustes da vida, que não são privilégios de um só sexo, é uma história fundamentalmente sobre mulheres. E, ironicamente, o personagem mais feminino é encarnado justamente pela figura de um escritor, poeticamente lindo e sensível, morrendo de aids (e de nostalgia e de frustração e de mais um monte de outras doenças oportunistas que matam pouco a pouco quem se arrisca a sentir além do necessário) num apartamento empoeirado e escondido numa nova york de hoje em dia.

Transbordava sentimento por todos os poros, esgarçados. Falava mais pelo olhar do que pelo que saía de sua garganta, espremido entre lágrimas e palavras vagas. Num contraste absurdo com sua realidade, pálida e sem sentido, despontavam dois olhos estupidamente claros. Meio como os que o protagonista do meu sonho sonhava ter. Olhos que tinham a mania estranha de se despedirem da vida a cada instante, como se tragassem seus últimos minutos, um a um, dolorosamente. Assim também era o sofrimento da Virginia, nos anos 20 e de Laura, nos anos 50. E talvez, numa menor proporção, o meu, quando não consegui dizer o que que estava entalado numa das nossas últimas despedidas.

Contrariando a célebre frase de Vinícius, viver não é a arte do encontro, é a arte das várias despedidas.

O mais doloroso do filme, entretanto, é o fato de que esse pode ser o fim - ou o início - de qualquer um de nós, a qualquer momento. No caso dele foi o início. Como se estivéssemos o tempo todo tentando conter emoções efervescentes, que teimam em ferver - e a queimar - na hora errada.

Não consegui imaginar um final diferente para a heroína de Virginia mas acabei – bem a contragosto – tentando montar um final diferente para vários outros "causos"- pessoais - alguns recentes outros nem tanto. Fui dormir pensando nisso e acabei tendo um sonho estranhíssimo com uma pessoa que não vejo há séculos.

Em parte, um sonho

Eu podia dizer que tive um sonho se isso tivesse acontecido há alguns anos atrás, mas como não nos vemos há um bom tempo, acho que o que aconteceu se limita a um pesadelo.

Estávamos num jardim, num lugar quase tão desconhecido quando ele, e começamos a conversar sobre qualquer coisa sem importância.

É incrível a facilidade que temos para falar as maiores imbecilidades quando precisamos fazer as melhores declarações de amor. A vida é mesmo engraçada...

E isso nunca nos aconteceu. Digo, as declarações.

Ele sempre foi tão sério, de uma exatidão tão precisa, tão hermeticamente inabalável, que envergonhava até as minhas menores distrações. Nunca houve gargalhadas entre nós.

Era isso, me lembro que ele estava tentando me dizer alguma coisa, e que estava triste, muito triste, e que segurava minha mão.

Eu, idiota, não conseguia pensar em nada consolador. Acho que para coisa que era não tinha mesmo muito consolo, mas acordei antes de saber exatamente o que estava acontecendo.

Espero ter o que falar caso o pesadelo venha à tona, algum dia, entre alguma gargalhada engasgada.

Queria ter a certeza de que ele está bem agora. Neste exato instante. Quero muito que que essa sensação ruim passe logo.

Come out upon my seas,
Cursed missed opportunities,
Am I a part of the cure,
Or am I part of the disease?

Clocks, Coldplay

segunda-feira, fevereiro 10

... "só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o passar do tempo, permanecer objeto do amor; porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser entendido como uma força vital" (lou Andreas-Salomé)

quarta-feira, janeiro 22

Silêncio
Silêncio...
Silêncio....
Silêncio.....

quarta-feira, dezembro 18

Por um sentido na vida

a intenção não era ficar tanto tempo sem postar, nem fazer tipo com um último post vazio, mas até que foi engraçado ver as reações.É que odeio obrigações, principalmente as implícitas: por que será que sempre temos que manter nossa sanidade mental e ainda convecer os outros disso? E esses blogs são mesmo a melhor forma de fazer isso?

Aqui estou constante. E posso ser excessivamente prolixa, exagerada, dissonante, parodoxal (e posso usar, com toda a liberdade do mundo, palavras que tenho pouca intimidade pura e simplesmente porque gosto do som que elas fazem, gosto dos ss e dos rrs repetidos, dos estalos ...).

Não consigo achar muito sentido em nada disso, digo em nada assim tão verbal, mas me admira ver que, às vezes, consigo convencer. Este título também aconteceu assim, despretensiosamente. Me lembrei do filme que leva o mesmo nome (e que assisti num dia comum, sem procurar sentido em nada) e pensei em escrever alguma coisa, fiquei com preguiça de procurar nos posts antigos se já tinha me referido a esse filme. Acho que quando o assisti, também pensei em fazer alguma crítica mas fiquei com preguiça. E aí recomeça a história. Penso, tenho preguiça, penso de novo, fico com mais preguiça: preguiça mental, existencial, corpórea, cultural, humana. Preguiça de me expor para quem eu conheço e preguiça ainda maior de tentar variar minha "mesmice" para os desconhecidos. Fatiando e disfarçando minha rasa intimidade, repartindo com estranhos esquisitices próprias e alheias.

Que graça isso tem?

(cont.)

terça-feira, dezembro 10


sexta-feira, dezembro 6

Intim(a)idade

me senti tão pouco à vontade nos últimos dias que acabei até perdendo a intimidade comigo mesma e o resultado: não estou conseguindo escrever. É estranho, mas isso aconteceu. Parece que só agora, aos 24 anos, entendi exatamente o que quer dizer a expressão "être mal dans sa peau", é um pena que eu não conheça uma expressão parecida em português... sei que pode soar exagerado mas meus últimos dias foram excessivamente femininos (com todas as implicações que esse termo possa carregar) e isso soou dolorido. Tudo começou com as várias "porradas verbais" que levei de estranhos. Eu, que sempre me gabei de ser a mais forte, mais forte até do que a maioria dos exemplares do sexo oposto que interagem comigo, confesso que fiquei com medo. E o medo cresceu de tal forma que eu me fez lembrar (ao invés de esquecer) que faço parte desse imenso e controvertido "universo feminino" (ah, como os chavões me preenchem!). Engoli de uma vez, sem mastigar, todo o lado não femino que trago comigo e deixei aparecer, meio desconfiada e totalmente a contragosto, o outro lado.
(cont.)

domingo, novembro 24

Quase...

qualquer coisa... assim se resumiu, ou melhor, está se resumindo, esse último dia do meu final de semana. É incrível, mas já na sexta-feira consegui imaginar como passaria as 48 horas seguintes. Nada me surpreendeu, quase como sempre, mas não estou ligando muito para isso. Na verdade, essa previsibilidade esc.... está até me acalmando um pouco. É algo que ainda está no lugar, quando tudo à minha volta está tão descompassado.

Estava a ponto de estourar (com qualquer um ou, na melhor das hipóteses, meus próprios miolos) mas comecei a ficar morrendo de fome. Decidi prolongar um pouco mais esse estado limite e acabei segurando a vontade de belicar comidas na gelareira para preparar alguma coisa mais elaborada.

O que saiu foi perfeito, nem precisaria acertar as contas com meu analista e passar lá para contar: escolhi um revirado de abobrinhas. Mais sintomático impossível! E o estranho foi que engolir aqueles pedacinhos verdes me fez digerir coisas que já deviam ter amadurecido há muito tempo mas que, no entanto, só estavam revirando meu estômago e minha vida.

E várias coisas conseguiram, no meio do almoço, no finalzinho da tarde, ama(nhecer)durecer. Cansei de fingir que tenho esses superpoderes. Não há fantasia que resista e eu já resisti demais. Fico agindo tão mecanicamente que desaprendi as coisas mais simples, agora estou tentando recuperar o tempo perdido.

Não adianta, não era nada disso que eu queria estar pensando, nem escrevendo. Queria me lembrar de alguma coisa boa, muito boa, que já me aconteceu. Como aquele dia, em que pouquíssimo à vontade, tive que engolir as folhas de alface com três garrafinhas de água mineral. Nunca tive tanta dificuldade de engolir: ele, as folhas de alface. Ele, quase como uma alface, que ficou por muito tempo presente.

’Cause, every kind of love, or at least
my kind of love
Must be an imaginary love to start with
Guess that can explain the rain,
waiting walking game
Schubert broke my brain to start with

Rufus Wainwright, Imaginary Love

Sinto falta de sua ausência, mas do que de sua presença. Saber que ele não estava por perto era muito mais forte do que ter certeza de que ele estava ao meu lado. As coisas passaram pela gente assim. Não temos lembranças, temos ausências. E ele aconteceu e desaconteceu como aquelas coisas da vida que a gente nunca vai poder explicar.

Um barco preso dentro de uma garrafa.

domingo, novembro 17

você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo


nem fale em amor
que amor é isto

Paulo Leminski

a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

Paulo Leminski

sábado, novembro 16

Você mais uma vez me fez chorar, mas lágrimas doces, doces como tudo o que vem de você. Eu acabara de me acomodar no avião e abrir seu livro, quando tive vontade de ver a sua caligrafia. Voltei para primeira página lamentando não ter pedido a você que nela escrevesse alguma coisa, e eis que elas estavam ali, suas ternas, atraentes e belas palavras. (...)

Eu estava aturdida, incapaz até de chorar naquele momento. Apenas aturdida. Depois o avião decolou. Gosto de aviões. Quando se vive intensamente uma grande emoção, ele é o único meio de transporte que se adequa ao nosso estado de alma, creio. O avião, o amor, o céu, a tristeza e a esperança constituíam um todo. Eu pensava em você...

(...) Nós não teremos de despertar porque não é um sonho; é uma história real e maravilhosa que apenas se inicia. Eu o sinto comigo e aonde eu for você irá, não apenas seu olhar, mas você inteiro. Eu o amo, e não há mais nada a acrescentar. Você me toma nos braços, eu me estreito contra você e o beijo como costumava beijá-lo.

In: "Simone de Beauvoir Cartas a Nelson Algren - Um Amor Transatlântico". Edição, tradução do inglês e notas Sylvie Le Bon de Beauvoir, Tradução e edição Marcia Neves Teixeira, Antonio Carlos Austregesylo de Athayde, Ed. Nova Fronteira, RJ.

leve como um nada...

meu corpo pesava horrores. Não conseguia me equilibrar sequer com a ajuda das pe(r)nas dos outros. A cabeça pendia para baixo ou para os lados, contrariando meus olhos que buscavam uma saída. Não tinha como contrariar aquela força estranha que brotava. Então, deixei de lutar e fiquei ali, parada, esperando alguma coisa acontecer, por minutos que pareciam séculos. Mas para minha surpresa, em pouco tempo já estava leve como um nada... consegui me redimir sendo apenas outra pessoa. E era ele, que mais uma vez aparecia.

Tantas coisas dele, antigas, passadas, misturadas às minhas, só me deixaram mais confusa e atordoada. Amava aquele rosto como algo visceral.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Sentia como se estivesse possuída, voluntariamente, por aquele corpo - outro - agora tão explicitamente próximo. Trocamos de lugar. Mas só por um tempo. Logo, logo, teria que suportar vê-lo embarcar, mais uma vez.

Como conseguir abrir seus olhos?

sexta-feira, novembro 15

O copo

Podia ter pensado em qualquer outra coisa mas cismou de lembrar da noite em que deixou escorregar de suas mãos e assistiu - atônita - o copo se espatifar em mil pedaços.

Ainda tentou recolher os maiores, para ver se conseguia montar depois com mais calma uma terceira coisa, diferente. Mas foi em vão. A poeira dos milhões de m(in)úsculos cacos, que se soltaram dos pedaços do co(r)po, espalhado no chão, preencheram os buracos que havia entre os tacos da sala.

A empregada estava de folga e teria que aturar aquela poeira dos cacos por mais alguns dias. É verdade, algumas coisas são insubstituíveis e, infelizmente, era esse o caso. A tradução era mais do que óbvia.

Nem precisou fazer esforço para se lembrar dele. Sua imagem, recolhendo o que sobrara na estante, se espelhou nos restos do copo que ainda estavam no chão. E a medida que anoitecia, menos ela conseguia distinguir o que sobrou do objeto e mais se fixava em sua imagem. Seria duro dizer que aquilo ali nunca deveria ter acontecido, embora soubesse que não deveria querer vê-lo com tanta intensidade, decidiu não contrariar o acaso.

Ele chegou assim, chegou não, aconteceu. Como se seu (des) aparecimento fizesse parte de alguma superstição, ou de uma forma estranha de benção. Como não dizer que não tinham se programado.

O copo se partiu em tantos pedaços, tão sabiamente separados, que ele não conseguiu encontrar nada menos constragedor, do que uma desculpa, para dizer.

Em pouco tempo, eram os dois que estavam ali, sozinhos, tentando suportar os próprios fragmentos, unidos por uma simples coincidência. As desculpas não importavam, ou melhor não valiam. Como desculpar o fato de terem desperdiçado tanto tempo - longe. Por terem preferido manter as coisas nos seus devidos lugares, sem medo de (ar)riscarem o co(r)po, se esqueceram que eram apenas essenciais, únicos, um para o outro. Mas preferiram tentar embaçar o que restava entre eles, translúcidos.

Aquele co(r)po tinha pouco de vulgar. Estava gasto, estava acabado, mas ainda pesava.



quarta-feira, novembro 6

terça-feira, novembro 5

Pills for breakfast

Odeio o ritmo descompassado dos que estão à minha volta. Procurando sempre alguma coisa para fazer, algum interlocutor. Não faz sentido. Prefiro descompassos esquizofrênicos. Procuro um clichê qualquer para sair de casa bem vestida, mas não encontro! O que devo fazer, então? No espelho, vou tentando me desfigurar um pouco, para transformar uma cara que ainda leva muito para mudar se depender do tempo. Um batom de véspera insiste em contariar o pálido do resto do rosto. Tudo bem, afinal o resto também não está chamando muito atenção.

Discreta (minto), tento esquecer as palavras ásperas daquele Beckett que tentei digerir na noite anterior.

"O dia também, quando faço um esforço, eu o lembro, e o comemoro com freqüência, ao meu jeito, não direi todas as vezes que me lembro, não, pois me lembro com demasiada freqüência, mas muitas vezes." in. Premier Amour

Que autoridade tenho para dizer qualquer coisa sobre ele? Nenhuma. E é justamente por isso, que sinto a maior liberdade em fazê-lo. Há um descomprometimento apaixonante em usar pseudônimos e poder agir, aderindo a essa forma de auto-exposição contemporânea. Os críticos, hipócritas, que se danem! A idéia de que talvez serei desconhecida pelo resto da minha vida, um pouquinho mais desconhecida, a cada dia, me completa com infinitas possibilidades.

domingo, novembro 3

A dor e a delícia de ser o que se é

Passei um final de semana diferente, não sei se bom ou ruim, diferente basta. Voltei para casa e fiquei horas revirando livros antigos do meu avô, relíquias, raridades. Redescobri um prazer quase sensorial ao abrir aquelas páginas amareladas, revirar os livros a procura de dedicatórias antigas, marcadores de página. O cheiro de guardado, de naftalina, que minha avó insiste em colocar por toda parte para afugentar as baratas, combinado com aquele monte de coisas do meu avô, tão exageradamente a mostra, me encheu os olhos de lágrimas.

Mas de naftalina do que de saudade, chorei. Quantas vezes vou ter que lembrá-la de que as baratas não gostam de livro, gostam de gente, de lixo, dos esgotos entupidos da cidade e de quartos de empregada. Mas os livros estão na sala, cuidadosamente embrulhados em papel de seda, seguros em suas capas duras. À salvo, como poucos de nós estamos, das baratas, de outros como nós ou de nós mesmos.

Eu e a barata pousadas naquela secura como na crosta de um vulcão extinto. Aquele deserto onde eu entrara, e também nele descobria a vida e o seu sal. in. A paixão segundo G.H., Clarice Lispector.

Começei a pensar como é bom achar coisas realmente a cara de alguém. Por amar demais, sempre me achei a cara de várias pessoas, mas nunca a cara de alguma coisa em especial. Livros? Bichos? Crianças? (Não necessáriamente nessa ordem). Talvez... Mas nada tão característico quanto aquela sensação que tive quando invadi o universo literário do meu avô.

Horas antes, no sotão, também descobri um quadro, não pintado, mas escrito, por minha mãe. Já tinha lido aquilo mas não me lembrava - ou não queria me lembrar - direito do que estava escrito. Temos um nome em (in) comum, e no texto, ela me deu uma razão e tanto para não desprezar mais esse nome: era uma parte dela que nascia de novo através de mim. Achei isso lindo e isso basta para eu assumir meu nome todo daqui por diante. Nunca tinha pensado nessa força de vida que carrego, um pouco a contragosto, em meu nome. Mas preciso me acostumar com isso, com ela, com meu nome, com as coisas bem guardadas que há em minha casa, e tão bagunçadas em minha cabeça.

Quando cheguei no Rio, a primeira coisa que fiz foi ligar para ele. Ouvi-lo, outra vez, fez com que uma claridade imensa se instalasse dentro de mim. Suas palavras me acalmaram, como uma história que já ouvimos dezenas de vezes mas que toda vez que ouvimos de novo, nos acalma.

Podia falar da saudade que sinto. Mas prefiro continuar o dia-a-dia como se ele ainda estivesse aqui. Como se fosse entrar pela porta , dizendo que eu não precisava me arrumar. Que o desarrumado em mim é que tem graça. E eu, envergonhada, preferia preparar alguma coisa para a gente comer. Como um sacrifício ou uma espécie de ritual, comíamos sempre a mesma coisa. A mesma quantidade de pão, o leite na mesma temperatura. Fazíamos como se aquilo fosse ficar eterno dentro de nós, guardado como um segredo, preenchendo o vazio que há em cada um de nós. O que comemos juntos nos últimos meses, saciará a fome que poderia nos matar agora que estamos separados. Como os cigarros que fumamos juntos, dividindo o gosto ruim na boca, a fumaça agressiva irrompendo em nossos pulmões, o gesto vulgar dos que acabam de se beijar ou de dormir juntos. Repetíamos essas coisas, como rituais, e agora, repito tudo sozinha, para não encarar sem nossas muletas a solidão.

Acho que o amor que sentimos um pelo outro, é mais ou menos assim. Um calma profunda que nos faz dar um passo de cada vez e não olhar para trás depois. É um conforto maior do que a urgência, uma certeza maior do que todas as dúvidas que estamos começando a entender.

Posso dizer que senti intensamente o primeiro dia de horário de verão. Senti por nós dois. Aproveitei para olhar para fora nos últimos minutos antes de escurecer. Agora são quase 8 horas e ainda não está totalmente escuro.

Algumas horas nos separam, mas não importa porque ainda teremos milhões de horas para dividirmos. O tempo passa rápido - e doído - quando estamos longe. Mas isso passa...

So I looked in your direction,
But you paid me no attention, do you.
I know you don't listen to me.
'cause you say you see straight through me, don't you.


I'll always be waiting for you,
So you know how much I need ya,
But you never even see me, do you?

And this is my final chance of getting you.
Coldplay, Shiver










quinta-feira, outubro 31

Sentimento do mundo

Poeta maior, poeta das sete faces, poeta do conhecimento, poeta da ação ou simplesmente o poeta. Nenhuma definição parece ser suficiente para abarcar o universo desse mineiro de Itabira do Mato Dentro, sujeito discreto, que começou a vida com um diploma de farmacêutico, seguiu como professor, jornalista, tradutor, funcionário público, e se tornou um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX, senão o mais importante.

Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. (...)
Mãos dadas

Expulso de um colégio interno, aos 16 anos, por "insubordinação mental", depois de uma discussão com o professor de língua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade nunca se intimidou diante das palavras, ao contrário fez delas o material bruto em que espelhou sua obra.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.(...)
No meio do caminho

Modesto, não se julgava substancialmente e permanentemente poeta: enxergava a poesia como um negócio de grande responsabilidade, que exigia pesquisa e conhecimento da realidade.

(...) Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo. (...)
Poesia

Individualista, soube dar o recorte merecido às diversas realidades que lhe impregnavam as retinas, das paisagens familiares da sua cidade natal à nostalgia de sua infância, do sentir-se estrangeiro no Brasil modernista que ajudou a construir à indignação - demasiada humana - com a Segunda Grande Guerra.

Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente, nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. (...)
Confidência do itabirano

Mas não se pode dizer que era de todo inconformado. Seus versos eram apenas excessivamente reais. Revelavam a assimetria de um mundo torto, um mundo, mundo, vasto mundo repleto de dívidas sociais, conflitos existenciais, inadequações amorosas e questionamentos literários.

(...) Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos. (...)
Hino Nacional

Como tema trabalhava o cotidiano à exaustão, mas em sua poesia o banal e o corriqueiro eram impregnados de cores únicas. Alheio à palavra vulgar do cotidiano.

(...) O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.(...)
Poema das sete faces

No dia 31 de outubro deste ano, Drummond completaria 100 anos. Um dia que poderia passar em branco, espremido numa semana de euforia cívica, às vésperas de um feriado de finados, chuvoso como o dos outros anos. Mas nasceu há 100 anos e não há mais como esquecê-lo. Não pode assistir a esse 31 de outubro de 2002, nem sentir a proximidade do nascimento de um futuro, espera-se menos amargo, mas soube, com sua poesia, nos preparar para a chegada deste dia.

(...) Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
A flor e a náusea

Sites relacionados

http://www.carlosdrummond.com.br
http://www.memoriaviva.digi.com.br/drummond/mais02.htm
http://odia.ig.com.br/sites/literatura/drummond/poeta.htm
http://www.unicamp.br/iel/alunos/publicacoes/textos/cda3.htm

O poeta das sete faces

não há o que dizer...

Declaração de amor

Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peônia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gérbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e junquilho meus. Meu ciclâmen. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas.Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo
.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe


valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.


Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


terça-feira, outubro 29

Esbarrando em Marylin Monroe

Um gole de alguma coisa cáustica, só para mudar o ar. Preciso de um pouco menos de cor a minha volta...



A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.


E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.


Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.


Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vicio, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.

E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

D.H. Lawrence, A indecência pode ser saudável

segunda-feira, outubro 28

"Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo."
Carlos Drummond

quarta-feira, outubro 23

Minha desgraça

Nem reparavam mais quando ela perdia um pouco ritmo ou o fôlego, ou quando seus pés, contrariados no sapato apertado, esbarravam acidentalmente em algum dos três pedais. Aos poucos foi acompanhando com a cabeça o ritmo da música. Seus cabelos já estavam desarrumados o suficiente para mudar a moldura do rosto duro que tentava esconder. O elástico ainda domava, infantilmente, alguns fios pretos, embaralhados, quase imperceptíveis. Seus óculos, masculinos, imitando o modelo famoso de um roqueiro que morreu assassinado, foram ficando rapidamente embaçados, a ponto dela não conseguir mais distingüir as teclas pretas das brancas. Mas isso era apenas um detalhe..

Não guardou nada dela. Também não tinha como levar coisa alguma. Preferiu tentar pensar em outra coisa e ao desviar a atenção acabou se concentrando justamente no piano. Seus dedos ágeis ficavam ainda mais ágeis quando estava tocando, não demorava muito e já pareciam reconhecer todas aquelas dezenas de notas. Era só começar que ficava distante de tudo. Mas os barulhos de passos na sala ao lado começaram a desconcertá-la. Alguns ainda tentavam prestar atenção, outros esboçavam sorrisos amarelos e preferiam estar em qualquer outro lugar diferente daquele. A maioria começava a sair da sala. Conjugavam a escuridão, ainda rebatida por algumas luzes, com baforadas de cigarro e alguns restos perfumes misturados.

Assim que parou não teve tempo sequer de guardar as partituras. Ele se aproximou e antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, colou seus lábios nos dela. O que se seguiu foi uma seqüência interminável de beijos, curtos e ásperos, raros como soluços quebrando a falta de sentido que já se instalava entre os dois.

Não fazia mesmo nenhum sentido. Depois dos beijos, a separação. Teve medo de aproximar seu corpo do dele. Ainda estava dormente por ter insistido em ficar mais tempo do que deveria no piano. Precisava se acostumar com essa nova (posi) (condi) ... compo... sição.

Se separaram novamente e ela, que não tinha percebido o suor em suas mãos, recostou as palmas no rosto dele, fechando seus olhos. Em seguida, como se procurando algum lugar mais confortável para repousar as mãos cansadas, doloridas depois de vencer o piano, lacrou sua boca, deixando apenas um espaço miúdo para sentir e tentar reproduzir a respiração pouco ofegante do menino.

Como que impulsionado por um instinto inaugural, sentiu que precisava chorar para desafogar um pouco a pressão do corpo dela contra o seu. Seu queixo tremia, contra sua vontade, o que fez com que as mãos dela deslizassem ainda mais e deixassem livre uma fenda em sua boca. Não tentou conter as lágrimas, seria em vão.

Antes de conseguir sentir alguma coisa, ela colou seus lábios em seu rosto e engoliu suas lágrimas, todas, uma a uma.

Estranhou o gosto, e como se travando uma guerra interna como uma forma singular de despedida ou de sobrevivência, se afastou.

Não se viram mais depois disso. Só o que faltava era ele lhe entregar um pacote de cartas antigas, que ele chamou Moja biéda, com a intenção de imitar a mesma inscrição do pacote enviado por Maria ao pianista. Mais isso, ele podia deixar para depois.

Estava só...





A teoria

O amor, sempre ele, volta, desarrumando tudo, trazendo à tona pessoas desbotadas, bocas, olhos, palavras, tempos difusos. Já não consigo mais olhar para fora porque já não consigo mais olhar além de você. Estou sufocada, e consciente e resignada aceito essa nova con(tra)dição. Não poder mais ser só.

E não vou lutar porque já sei que vou esbarrar nos mesmos medos, no mesmo começo, no mesmo gosto estranho. Meu coração é só e vilão dos meus pensamentos. Estou afogada e cada vez desejo ir mais, mais longe. Não consigo mais parar e não entendo esse caminho - novo.

O maior mal entendido que existe é não conseguir dizer eu-te-amo... ou dizer e engasgar logo depois.

O tempo do amor mergulha em nossas sensações até que os cinco sentidos nos façam submergir de dor ou de enlevo. Dizem que o amor dura quando os aventureiros conseguem tratar de seus ferimentos, quando a pele se renova, quando começam a olhar um para o outro como Narciso na água. Isso exige muita paciência, um grande culto ao tempo... à magia que transforma o espaço de uma percepção, de um mal-estar ou de uma alegria em uma dádiva... Somente um barulhinho para lhe avisar que estou aqui com você, que estamos tão bem juntos aqui... O tempo é o amor às pequenas coisas, aos sonhos, aos desejos. Não temos tempo porque não temos bastante amor. Perdemos quando não amamos..." (Os Samurais, Julia Kristeva)

Escrever...

para não pensar, como falar muito, por horas e horas, cuspindo palavras, expressões, ditados, erudições para não chegar a dizer coisa alguma. Quantas vezes fui salva pelo excesso. As pessoas funcionam assim, passam a vida toda tentando achar sentido, para o que, ao contrário, não tem sentido nenhum. A razão de - quase - tudo é ir vendo o que acontece. Mas para chegar a ter isso e chegar até isso é preciso deixar as coisas só. Deixar as coisas irem "acontecendo" ao seu tempo, pouco a pouco.

Não vou dizer que é fácil tolerar a vida com esse grau de despreendimento, mas não é fácil tolerar a vida de jeito nenhum. Como se assistíssemos, confortáveis, em poltronas acolchoadas, o desenrolar dos dias, um após o outro. Dias coloridos de encontros, acinzentados de mágoa, apressados pela hora, envelhecidos. Dias sépia...

Outro dia, falei do silêncio como uma espécie de "engasgo" capaz de dizer muita coisa. Acabei me contradizendo: ele é falível e, às vezes, só encontramos conforto e solução nas palavras simples, frases curtas, sem sujeito.

É como aquelas pessoas que daríamos a vida para ter, e por tentar tudo, tanto, nunca chegamos a dizer o quanto elas são importantes, o quando precisamos delas.

Nunca imaginei que um certo cara gostasse de mim, mas um dia ele me surpreendeu elogiando justamente a parte mais aguda que há mim. Aguda, no sentido literal da palavra, porque descobri, mais tarde, que ele estava falando da minha voz. Sempre odiei minha voz. As palavras não combinam com minha pouca impostação, não consigo convencer... não consigo ser firme no que digo.

E ele disse isso quando voltávamos de um lugar comum. Nada especial tinha acontecido, aliás, aquele encontro nem tinha sido programado. E depois daquilo nada mais aconteceu.

Nada aconteceu entre nós, mas ele, que tinha uma voz linda, tecnicamente falando, mostrou que entendia muito mais da vida e do amor, do que eu, no auge dos meus 15 anos.

Até hoje fico sem voz quando penso no que ele disse: ele falou meu nome todo, dizia que gostava de nomes compostos, mas no fundo sabia que assim como ficar ao seu lado ouvir meu nome me causava um tremendo mal estar. Mas não parecia estar ligando para isso. Disse que gostava muito da minha voz com a maior simplicidade do mundo. Como se dissesse um simples muito obrigado.

Nos falamos poucas vezes depois disso, e dificilmente teríamos motivos para nos falar ainda hoje, mas queria poder lhe dizer o quanto demorei para entender aquilo. E o quanto foi bom conseguir entender.

...

Como no dia em que o deixei no aeroporto. Substituí palavras por lágrimas. E foi só.



terça-feira, outubro 22


"Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo."
Manoel de Barros

E a chuva continua, timidamente. Está caindo, deliciosamente, por entre os arranha-céus do centro da cidade. Todos estão a procura de guarda-chuvas poderosos. Alguns tentam ajeitar o cabelo, inutilmente. A chuva cai esfriando o calor do meu corpo. Os pingos ainda são minoria, misturados às gotinhas de suor do meu rosto. Mais isso não demora a mudar...

Rain

Não consegui me concentrar em mais nada depois que comecei a reparar no céu e ver que ia começar a chover logo, logo. Fiquei ali detida por uns muitos minutos, contrariando os carros que insistiam em me interromper. As luzes fortes, dispersadas pelo barulho das buzinas, conseguiram finalmente, depois de algum tempo, me tirar daquele transe, mas como se envolvida por aquela atmosfera carregada e densa, acelerei o carro em busca de algum outro lugar onde pudesse continuar esperando a chuva.

Mas os primeiros pingos de chuva, inéditos naquela semana, foram mais rápidos do que eu, e inauguraram uma nova temperatura naquela tarde, quando eu ainda estava no meio do caminho. Em um instante, como se concordando com toda aquela decisão da Natureza, me arrependi de ter desejado sentir a chuva do lado de fora do carro e aproveitei essa nova perspectiva: a chuva fria acontecendo inesperada do lado de fora da janela.

As vidraças ficaram rapidamente encharcadas do lado de fora e embaçadas do lado de dentro. Sem pensar muito, abri os dois vidros e deixei as janelas escandaradamente abertas, à espera da chuva. E a chuva não demorou a acontecer...

Ás vezes, conhecemos pessoas tão intensas que chegam quase a ser solares. Esbarramos com gente assim, de vez em quando. Mas pessoas-chuva, esse tipo eu nunca encontrei. Posso imaginar alguém assim e acho que seria um homem e que, se eu não pudese me apaixonar por ele, seria capaz de querer ser como ele.

Porque, às vezes, quando vejo uma pessoa que nunca vi, e tenho tempo para observá-la, eu me encarno nela e assim dou um grande passo para conhecê-la. E essa intrusão numa pessoa, qualquer que seja ela, nunca termina pela sua própria auto-acusação: ao nela me encarnar, compreendo-lhe os motivos e perdôo. Preciso é prestar atenção para não me encarnar numa vida perigosa e atraente, e que por isso mesmo eu não queira o retorno a mim mesmo. (trecho de Encarnação involuntária, de Clarice Lispector)





segunda-feira, outubro 21

Trecho da carta To The Immortal Beloved, de Ludwig Van Beethoven

Why this deep sorrow when necessity speaks - can our love endure except through sacrifices, through not demanding everything from one another; can you change the fact that you are not wholly mine, I not wholly thine - Oh God, look out into the beauties of nature and comfort your heart with that which must be - Love demands everything and that very justly - thus it is to me with you, and you with me. But you forget so easily that I must live for me and for you; if we were wholly united you would feel the pain of it as little as I.

Através do espelho

Foi difícil digerir imagens refletidas no espelho, a minha, inclusive, depois que assisti, no sábado, ao doce Paraíso, do alemão Tom Tykwer, como roteiro de Krzystof Kieslowski. Encarei o filme num sábado de calor torturante, depois de ter passado boa parte do dia me revezando entre a areia escaldante de Ipanema e a água, excessivamente salgada e fria, do mar. De goles incertos de uma água tépida misturada as mais diversas cores de pele que dividiam comigo a arrebentação, ao mais duro gole de água mineral com gás combinado com o barulhento ar-condicionado do Estação.

O filme, silencioso, arriscado, sensível e cru de tão vivo, não me deixou livre de dores de cabeça mas, ao contrário, me impulsionou para pensar em coisas que jamais passariam pela minha cabeça num sábado de sol. Não estava fisicamente sozinha, mas estava particularmente alheia a todos que completavam aquela sala escura de projeção. Logo nos primeiros minutos, com a música clássica insistindo em acompanhar o ritmo das cenas, pude perceber como o diretor alemão conseguiu conduzir, com o peso e a delicadeza necessários, a história de amor que acontece entre a professora de inglês Philippa (Cate Blanchett), assassina acidental de quatro pessoas num atentado equivocado, e o policial Filippo (Giovanni Ribisi), que se obstina por deixá-la escapar da Justiça.

Muito mais do que a óbvia identificação que poderia surgir entre eu e a personagem: professora de inglês de crianças, numa escola primária na Itália, acabei ficando muito mais ligada ao personagem de Giovanni Ribisi. Com um total despreendimento da vida, Filippo descobre e resgata o que resta de humano e belo em Philippa e abre mão de sua própria vida mais do que por amor, por um sentimento próximo da devoção. Uma força inaugural, primitiva, primeira, une os dois numa empreitada pouco entendida e ensaiada por nós, pobres mortais, que estranhamos a força desse sentimento incômodo que é o amor.

É um filme de amor e vale por isso. Nos faz ver como é idiota e artificial a realidade que construimos quando passamos horas, dias, às vezes, anos, embaralhados com casos e pessoas, enquanto simulamos situações de amor.

As atuações - perfeitas - esboçam isso o tempo todo. Um amor latente, visceral. Desses que ao invéz de nos tornarem felizes ou tristes, nos confortarem ou nos envolverem, nos tomam tudo, e consomem os cacos que nos restam.

Não acredito que seja possível viver isso tudo assim, literalmente. Viver a liberdade, a dor, a paz, o amor, em essência, é perigoso demais para nossos corações infantis. Esquecemos dos beijos com muita facilidade. Misturamos rostos, cedemos sem medida a palavras e declarações pouco consistentes. E quando confessamos, desarmados, o amor, corremos o risco de acordar.

É impensável crer que algum sentimento cause tantas contradições como acontece com o amor. Aconteceu comigo, na primeira vez que pude supor que conhecia o amor, e constrangida, aprendi sozinha a conviver como a fraqueza do outro ao encarar tal insensatez. Como lidar com a incompletude alheia, quando somos, nós, os mais racionalmente incompletos e difusos?

Sometimes a man gets carried away, when he feels like he should be having his fun
And much too blind to see the damage he's done
Sometimes a man must awake to find that really, he has no-one


Mas não desisti, e acho que ele também não. Descobriu que outras formas de amor valem a pena e está bem agora, com certeza melhor do que se estivesse comigo. Como uma carta de amor que recebi uma vez com meu nome no destinatário. Aconteceu assim...

Lonely is the room, the bed is made, the open window lets the rain in
Burning in the corner is the only one who dreams he had you with him
My body turns and yearns for a sleep that will never come


Depois do filme, aparece uma sensação desoladora de que talvez nunca conseguiremos atingir o paraíso amoroso de Kieslowski. Mas o que fazer se algum dia nos depararmos com alguém que pode colocar tudo a perder, inclusive nós mesmos, por amor? Certamente, não saberemos reconhecer inteiramente esse momento, e eu tenho medo de já ter passado por isso... e ter saído ilesa...

Mas isso acontece, independente de nós... felizmente...

Well I feel too young to hold on
And i'm much too old to break free and run
Too deaf, dumb, and blind to see the damage i've done
Sweet lover, you should've come over
Oh, love well i'm waiting for you

Jeff Buckley, Lover, You Should've Come Over